Sherlocks on the rocks nas Diretas Já

15/10/2009 at 4:30 PM 1 comentário

Conheci José Arrabal em 1986, no primeiro ano da faculdade de Jornalismo. Ele era meu professor e logo na primeira aula perguntou aos alunos se havia alguém que poderia dar-lhe uma carona para algum ponto próximo da avenida Santo Amaro. Naquela época, eu morava na então pacata Vila Olímpia, a três quarteirões da avenida, e me prontifiquei a levá-lo até o ponto de ônibus. Mal sabia eu que naquele momento estava nascendo uma amizade que dura até os dias de hoje e, mais do que isso, acabou dando frutos: o livro Sherlocks on the rocks nas Diretas Já, que acaba de ser lançado pelo selo Amarilys, da Editora Manole.

Escritor de longa data e vasta obra, o Arrabal sempre me estimulou a escrever literatura. Lá pelos meus 20 e poucos anos, quando ainda elaborava umas coisas que ousava chamar de poesia, levava meus textos para ele ler, criticar e esperava ansioso os comentários sempre pertinentes. (Ainda bem que o bom senso me levou a jogar aqueles versos no lixo).

Algumas vezes, cheguei a comentar com o Arrabal que seria interessante escrever um livro a quatro mãos com ele e, de fato, a idéia virou realidade quando o Arrabal comentou que imaginava um dia escrever um livro que se passava durante as Diretas Já. Topei a proposta na hora. Estava aí: um livro voltado para o público juvenil passado na época das diretas.

Combinamos o seguinte: um escreveria um certo número de páginas e, quando tivesse terminado, passaria a sua parte para o outro dar continuidade, depois, voltaria para o primeiro que continuaria do ponto aonde o outro parou e assim sucessivamente.

E foi o que aconteceu. Eu comecei, passei para o Arrabal, que avançou e devolveu para mim que retornei para o Arrabal, que concluiu a obra.

Se disser que esse processo todo durou pelo menos uns seis anos para ficar pronto, não estarei mentindo. Na verdade, não foram seis anos de escrita. A demora foi mais porque o livro ficava guardado na gaveta, enquanto desenvolvíamos outros trabalhos. Brincávamos que estávamos competindo com o Joyce, que levou 22 anos para escrever Ulisses.

Mas o divertido era quando a obra saía da gaveta e um telefonava para o outro para ler o que havia acabado de escrever. Gargalhávamos com as passagens inventadas, com as situações em que deixávamos os personagens, com as armadilhas que o Arrabal deixava para mim e eu para mim. Enfim, nos divertimos à beça.

Bem, agora, é curtir o livro. O lançamento será no próximo dia 24/10, das 15h às 17h30, na livraria Martins Fontes (avenida Paulista, 509). Estão todos convidados.

Deixo abaixo uma pequena passagem do livro, no qual temos uma reunião dos vilões.

“Uma conversa confusa, que deixou Carlão Malvadeza ainda mais nervoso. O bandidão, por fim, não se conteve.

– Quem está aí, vampiro?! – berrou, com raiva.

– É o motorista de Seu Herr Göllor! Veio de Embu das Artes e traz um recado pro senhor. Diz que é urgente, mas não conta o que é! – respondeu Dentinho aos gritos.

Eu, todo dolorido, não entendia nada de nada daquela história. “Herr
Göllor?!” – pensei comigo. “Quem haveria de ser esse Herr Göllor?! Boa gente decerto não era.”

– Pergunta qual é o recado e vem aqui me dizer! Fala pra esse sujeito não ficar aí te enrolando. Chega de conversaria! – ordenou Carlão.

Foi o bastante para pôr fim no bate-boca. Logo em seguida, Dentinho subiu a escada aos saltos, chegando à porta da sala onde estávamos.

– O cara lá embaixo, doutor Carlão, é aquele Zelianízio Mello, o caolho que dirige pra Seu Herr Göllor – explicou, exibindo os caninos de ouro. – Diz que veio buscar o senhor mais Seu Fulam, a mando do patrão dele. Parece que deu alguma encrenca com o carregamento de pedras preciosas que vem da Chapada Diamantina, na Bahia. É coisa séria, mas não quis falar direito. Só por alto.

– Amarra a boca, Dentinho! Não vai entregando tudo assim às claras na frente de gente estranha! – interrompeu Malvadeza.

– Que gente estranha é essa, chefe? O recado é também pra Seu Paul Fulam – justificou-se o bandido. – Depois, o homem tem pressa, porque o caldo engrossou mesmo. Até Sir Joseph Ney, aquele gringo inglês bigodudo e velho lá do Rio de Janeiro, está em Embu, na casa de Seu Herr Göllor, aguardando vocês dois. Veio de avião. Diz que está uma fera com o que vem acontecendo.

Diabos! Quem seria o tal Sir Joseph Ney?! Gringo inglês?! Nunca ouvira falar nele!”

Capa do livro "Sherlocks on the rocks nas Diretas Já"

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1 Comentário Add your own

  • 1. José Arrabal  |  16/10/2009 às 8:11 AM

    Ilustre Reinaldo!
    Grato pelas simpáticas e verdadeiras palavras a respeito de nossa história comum. Muito bom ter me encontrado contigo, Gi, Mauricio e Filipe ao longo da vida. Muito bom existir, neste mundão velho de guerra, gente feito vocês. Vale aqui uma ressalva: as suas poesias não eram ruins e nem todas foram para o lixo… tenho algumas bem guardadas comigo, versos marcantes, excelentes… vc é pessoa grande e brilhante naquilo que quiser ser, a começar por bom e genenroso amigo, portanto será igualmente bom poeta, aliás, também o é!!! E a certeza dessa verdade nesta mensagem aqui não é só minha, é tb de Tatu Barbudo, de Madame Katha “Dilma” Coelho, do Arquiduque Luizolev e de nosso alter ego, o bravo aventureiro bom-bril, o polivalente Peter Flag! Pode crer! Aliás, a biografia dele precisa ser escrita. Está em suas mãos. É sua obrigação! Quero ler! Forte e fraterno abraço, J.A.

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