A Marselhesa da negritude brasileira

10/09/2009 at 8:23 PM 1 comentário

A Marselhesa, como sabemos, não nasceu para ser o hino da França e, ao contrário do que muitos pensam, sequer foi cantada pelo povo durante os levantes de 1789 que culminaram na queda da Bastilha. Até porque não existia. Essa música foi composta em 1792 como um canto de guerro com o objetivo de estimular os soldados franceses que partiam para a guerra contra as tropas do rei da Hungria e da Boêmia.

A canção acabou sendo também bastante entoada pelos federados de Marselha que, em agosto de 1792, ajudaram a derrubar a monarquia francesa; a música caiu nos ouvidos do povo e o fim da história todos sabemos: de tão popular, tornou-se o hino da França e, mais do que isso, se transformou, em caráter mundial, em um ícone das lutas do povo contra regimes opressores.

Falo da Marselhesa porque acabo de ler notícia de que a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara aprovou a oficialização em todo o território nacional do Hino à Negritude. A música é de autoria de Eduardo de Oliveira, poeta e professor, autor do livro Quem é quem na negritude brasileira.

Acho extremamente valioso esse momento pelo qual vem passando a sociedade brasileira que se empenha em resgatar e valorizar a história dos afrodescendentes no Brasil.

Muito já se escreveu a esse respeito e concordo com todos os argumentos surgidos: a história do negro no Brasil é pouco conhecida e valorizada; nos livros didáticos os afrodescendentes aparecem na maior parte das vezes em posição inferiorizada, quase sempre em situação subalterna perante os brancos; a história de resistência dos negros é muitas vezes deixada de lado, os alunos nas escolas não sabem quão grande é o legado do negro na formação dos hábitos e costumes da população brasileira, muitos afrodescendentes – diante de todo esse quadro – não sentem orgulho de sua negritude e pior ainda, se nada for feito em nossa sociedade para mudar essa realidade, estaremos contribuindo para que a discriminação racial e o preconceito, que aparecem de forma camuflada em nossa sociedade, continuem se perpetuando, o que é uma vergonha.

Mas apesar de tudo isso, tenho minhas dúvidas a respeito da necessidade de se compor um Hino à Negritude. Se pararmos para olhar as manifestações culturais brasileiras, sou capaz de apostar que, em nenhum outro gênero – cinema, pintura, poesia, literatura, dança – a presença do negro é tão marcante quanto nas letras das música da nossa MPB.

A lista é imensa e vou citar aqui algumas que me vêem à memória, sem qualquer pesquisa: Mestre-sala dos mares, de João Bosco e Aldir Blanc, Mama África, do Chico César, Negro é lindo</em>, de Jorge Ben Jor, Kizomba, festa da raça, de Martinho da Vila e por aí vai. São músicas que estão na boca e na alma do povo, assim como a Marselhesa dos franceses.

E aí, quando eu me deparo com a letra desse Hino à Negritude me pergunto. Será que versos como

Este povo imortal
Que não encontra rival
Na trilha que o amor lhe destinou
Belo e forte na tez cor de ébano
Só lutando se sente feliz
Brasileiro de escol
Luta de sol a sol
Para o bem de nosso país

têm a força, o mesmo apelo, a mesma identidade com o povo do que, por exemplo “Glória/a todas as lutas inglórias/que através da nossa história/não esquecemos jamais” ou com a letra de qualquer outra música listada ou ainda com milhares que ficaram de fora dessa relação?

Lendo a letra do hino, me lembrei dos poemas de versos empolados tão característicos da poesia brasileira anterior à Semana de 22. São versos que – com todo respeito ao autor – tendem a cair no esquecimento, ou pior ainda, mal chegar ao conhecimento (ou ao coração) da população.

Na minha opinião de leigo, esse hino está anos-luz atrás da música Canto das três raças, de Paulo Cesar Pinheiro e Mauro Duarte, que poderia, muito bem, ser a Marselhesa da negritude brasileira. Na voz de Clara Nunes, logicamente!

Mas aceito outras sugestões.

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1 Comentário Add your own

  • 1. José Luiz  |  13/05/2011 às 9:10 PM

    ~Então, Gislaine & Reinaldo, penso que vocês tem razão, tanto no que se refere ao Hino à Negritude quanto a maneira como o negro é mostrado nos livros didáticos. Por outro lado, é importante mostrar aqueles que, sendo descendentes de escravos conseguiram elevar-se social e economicamente mas, inseridos em dado contexto sócio-cultural e econômico, tomaram para seus serviços escravos. A questão é: como trabalhar tal questão?
    Abraços
    José Luiz

    Responder

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