O Big Brother de Orwell ainda está de olho em você

09/06/2009 at 12:57 PM Deixe um comentário

O artigo abaixo, publicado no jornal O Estado de S.Paulo é a respeito do livro 1984, de George Orwell, mas faz um interessante paralelo com os nossos tempos.

Antonio Gonçalves Filho

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De todas as frases que ressoam do distópico 1984 (Ibep Nacional, 302 págs., R$ 65,90), lançado há 60 anos, no dia 8 de junho de 1949, a mais aterrorizante diz respeito ao pesadelo bélico de seu autor George Orwell. “Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre”, escreve em seu clássico que, seis décadas após sua publicação, os regimes totalitários se encarregam de manter atual. Não fossem as ditaduras que sobrevivem, ainda confirmariam suas proféticas palavras as ameaçadoras câmeras espalhadas pelo planeta, que inclui tanto as de TV como as da web, passando por circuitos fechados e vigilantes olhos eletrônicos que monitoram vias públicas.

Sorte de Orwell ter morrido antes de virar adjetivo – orwelliano – para definir tudo o que há de ruim ligado à ideia do totalitarismo, ao poder absoluto do Estado. Ele apenas imaginou um mundo controlado por três superestados intercontinentais, mas a extensão da tragédia se revelou maior que no distópico 1984. No livro, eram simples helicópteros que fuçavam as janelas de subversivos descontentes com o regime do Big Brother – entidade abstrata que comanda a vida de todos os cidadãos por meio de telões instalados nas casas. Na vida real, há mais de um Grande Irmão a ameaçar a integridade física e psicológica dos irmãozinhos, auxiliados na tarefa por uma diabólica rede de computadores, celulares e microcâmeras instaladas em cada cruzamento de rua.

Na esquina da casa de Orwell, que fica em Canonbury Square, Islington, ao norte de Londres, nada menos do que 32 câmeras controlam cada movimento dos bípedes – e também quadrúpedes – que circulam por ali. E talvez não seja demais lembrar que a Inglaterra, terra natal do escritor, tem uma câmera apontada para cada 14 habitantes (são 4 milhões delas). Como se não bastasse, o olho virtual do serviço de um gigante da internet já pode invadir qualquer lar descuidado com suas câmeras abelhudas, tornando real a ameaça de Orwell. De resto, é só imaginar todo esse arsenal – somado às armas atômicas de destruição em massa – nas mãos de um lunático como o ditador da Coreia do Norte para concluir qual será o fim dessa história. Melhor não.

No livro, ela é manipulada pelo Ministério da Verdade, paradoxalmente um braço do superestado Oceania dedicado a reformular a história e contar mentiras para os milhares de infelizes súditos do Big Brother. Winston Smith, assim batizado por Orwell em “homenagem” a Winston Churchill, é um funcionário público encarregado de alterar dados e registros jornalísticos que o partido único de Oceania considera perigosos para a estabilidade do regime. Smith incinera exemplares de jornais e cuida da informação pública até conhecer Julia, sua colega de trabalho. Incentivado a se rebelar contra o partido – chamado no livro de IngSoc, abreviatura de socialismo inglês -, ele descobre tardiamente que sua revolta é incitada por um traidor. Preso ao lado da companheira, Winston é levado ao nono círculo do inferno, uma sala de torturas conhecida como Quarto 101. Lá é submetido a eletrochoques e obrigado a confrontar sua pior fobia – ratos famintos presos em uma gaiola a poucos milímetros de seu rosto.

Como se não bastasse, a ratazana chamada O?Brien também o tortura com palavras. Lembra que a Inquisição falhou ao transformar os hereges em mártires. Também os nazistas e os comunistas russos – que Orwell cita nessa ordem – perseguiram a heresia mais cruelmente que a Inquisição e não tiveram melhores resultados. Por quê? Porque deixaram que a posteridade julgasse seus atos. O Partido não deixa rastros. Não permite que os mortos se levantem contra eles. Destroem tudo: a história e a memória pessoal dos rebeldes. Arremata O?Brien: “A posteridade jamais ouvirá falar de ti. Serás totalmente eliminado da história. Haveremos de te transformar em gás e te soltar na estratosfera. Nada restará de ti. Não terás existido nunca.” Se, no passado, os hereges caminhavam para a fogueira ainda heréticos e as vítimas dos expurgos stalinistas viravam heróis, Oceania consegue o impossível: elimina a prova existencial da passagem de Winston pelo planeta.

No livro, Winston morre com uma bala instalada no crânio. Na adaptação para o cinema, feita em 1984 pelo diretor inglês Michael Radford (leia texto abaixo), o funcionário público, submetido a uma lavagem cerebral e reciclado num perverso programa de recondicionamento, acaba numa espécie de boteco infecto, bebendo gim e remoendo a culpa por ter traído a única pessoa que amou na vida, Julia, em nome do Grande Irmão.

O sistema não usa apenas esse recurso para converter os inimigos do Big Brother, levados, como o burocrata Winston, a odiar o arquirrival do Estado, Emmanuel Goldstein. Ex-integrante do Partido, Goldstein rebelou-se e teve o mesmo destino dos subversivos de Oceania – o sobrenome judeu é uma referência direta a Bronstein, verdadeiro nome de família de Trotski, perseguido por Stalin (Orwell apoiou a luta do Partido Operário de Unificação Marxista, milícia de tendência trotskista, contra a ditadura de Franco). Goldstein pode ser também uma ficção inventada pelo Ministério da Verdade, que só conta mentiras para que o Ministério da Paz promova sua guerra perpétua contra a Lestásia. Como se vê, as semelhanças com o regime stalinista não são poucas. Orwell, em seu livro Por Que Escrevo e Outros Ensaios, afirma que tudo o que produziu depois da Guerra Civil espanhola foi “contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático”. 1984, assim, seria um manifesto contra os traidores da revolução socialista. Stalin, entre eles.

Um dos aspectos mais assustadores de 1984 é o uso da linguagem para manter sob controle cidadãos condicionados pelo regime a dedicar dois minutos de ódio ao proscrito Goldstein, traidor que “conspurcou” a pureza do Partido ao denunciar num livro – que ninguém jamais leu – as atrocidades cometidas em nome de uma ideologia. A língua inventada pelos donos do poder em Oceania, a novilíngua, serve não só para demonizar os inimigos do Estado como para controlar o pensamento dos cidadãos de Oceania, submetidos a esse idioma ainda em construção, destinado a expurgar expressões e opiniões contrárias ao regime. Orwell já alerta para o perigo da uniformização cultural bem antes do advento do mundo globalizado e da padronização linguística imposta pela internet.

Não foi sua única profecia. Pela boca do perverso O?Brien, Orwell prevê que, no futuro, não haverá mais curiosidade nem alegria diante do milagre da existência. Porém, sempre haverá a intoxicação do poder, a sensação de vitória diante dos inimigos dos superestados. Portanto, todo cuidado é pouco. O Big Brother de Orwell ainda está de olho em você.

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