Imprensa aborda de modo insatifatório casos de violência na escola

08/06/2009 at 3:30 PM 1 comentário

Matéria abaixo foi divulgada pela Agência Envolverde

Por Vivian Lobato, do Aprendiz

Durante o mês de maio, casos de violência dentro das escolas da rede paulista ganharam espaço na imprensa. O tema gerou repercussão e com isso retoma-se o debate de como a grande mídia aborda o assunto. A cobertura foi completa? As informações foram passadas corretamente? As notícias foram espetacularizadas?

Para a coordenadora do Observatório da Educação acesse no http://www.observatoriodaeducacao.org.br/ – programa da Ação Educativa que tem por objetivo elaborar e disseminar informações e opiniões consistentes e plurais – Mariângela Graciano, a mídia, em geral, reflete o senso comum. Como o tema é carregado de preconceitos, eles acabam sendo reproduzidos pelas reportagens.

“O que é violência na escola? A violência é um problema da sociedade que se manifesta na escola. A mídia, muitas vezes, coloca como se o problema estivesse só na instituição de ensino. As informações são muito pontuais. Falta mais apuração, pois a maioria das reportagens é feita a partir de denúncias que consideram violência o que não necessariamente é”, explica Mariângela.

No caso da Escola Estadual Professor Antônio Firmino de Proença, na qual estudantes entraram sem autorização da direção e depois foram acusados de depredar o espaço, o jornal O Estado de S.Paulo publicou que os jovens estavam “fumando maconha”. Já a Folha de S.Paulo colocou que os estudantes estavam “passando drogas”.

“O tema é quente. Vende. Chama atenção. Os jornalistas só querem dar a notícia e da maneira mais estrondosa. Há uma irresponsabilidade muito grande da mídia quando se fala em educação”, diz o professor da Faculdade de Educação da Universidade São Paulo (FE-USP) Júlio Groppa Aquino.

“Muitas vezes, a dificuldade é o tempo de apuração. Acho que dificilmente um veículo inventa uma informação. O que ocorre é que, dependendo de quem é ouvido, pode vir uma informação. Às vezes, falta tempo para aprofundar, para saber quem está mais próximo do correto”, explica o repórter de Cotidiano da Folha de S.Paulo, Fábio Takahashi.

Outro problema recorrente para Mariângela é a terminologia utilizada e a marginalização das escolas públicas. “A mídia tratou a questão com uma linguagem de cobertura policial, utilizando termos como invasão. Além disso, não vemos nas manchetes casos de violência em escolas particulares e nem bons exemplos”, diz.

A repórter do jornal O Estado de S.Paulo, Simone Iwasso, discorda. “Não acho que a mídia marginalize a escola pública. São publicados muitos casos de violência em escolas particulares, em especial quando se trata de bullying. Lembro de uma reportagem da revista Época que foi específica sobre o tema. O que acontece é que os problemas da escola pública são diferentes dos problemas das escolas particulares. A violência na escola particular acaba sendo uma violência mais em grupo”, argumenta.

Em relação aos bons exemplos, a jornalista completa. “As matérias de violência repercutem muito mais. O jornalismo tem essa característica de repercutir mais o que é negativo”. Para Takahashi, a escola pública está em uma situação caótica. “Esconder esse fato é incoerente com o jornalismo e é prejudicial à sociedade”, diz.

Contextualização e análise

Quando o tema de violência nas escolas aparece na mídia, as maiores reclamações são: falta de contextualização e falta de reportagens mais analíticas.

“Normalmente, as reportagens são pontuais e descontextualizadas. A cobertura da mídia é limitada. Acho que nenhum veículo dá conta”, diz Simone.

Para Mariângela, o que falta para a mídia é uma cobertura mais cautelosa, sempre relativizando o tema e buscando pluralizar as fontes. “Não basta dizer se é certo ou errado, se é pró ou contra. O tema envolve diversas questões. Seria interessante ouvir pesquisadores, antropólogos, sociólogos, pois ajuda a qualificar a informação”, diz.

“Em geral, o repórter quer um especialista para referendar ou não um ponto de vista. É isso e ponto final. ‘Nós precisamos de um especialista para dizer se a ação da diretora foi correta ou não’. Primeiro, eu poderia dizer assim: escola não é lugar de polícia. Mas quem sou eu para dizer o que está certo ou não? Eu não sou a diretora e eu não estava lá. Quem sou eu para julgar? É preciso dar uma complexidade para o tema e a mídia adora fazer só pró e contra”, ressalta o professor da USP, Júlio Groppa Aquino.

Outro ponto levantado pela coordenadora do observatório é a falta de pautas sobre os casos de sucesso. “Quando você encontra o problema, ele está em todos os lugares, mas quando encontra a solução, dificilmente ela está na mídia. A imprensa deveria buscar as alternativas. Disseminá-las para colaborar com a busca das soluções e do entendimento do problema”, lembra Mariângela.

De acordo com a repórter do jornal O Estado de S.Paulo, outro problema que dificulta muito a cobertura da mídia é a mediação feita pela Secretária de Educação do Estado de São Paulo entre a escola e a imprensa. “Não podemos entrar nas escolas públicas sem autorização da Secretária. Os professores não podem falar, têm medo. É preciso contar com a boa vontade de professores e alunos que queiram falar sobre o assunto”, finaliza Simone.
(Envolverde/Aprendiz)

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